Portalegre: Uma das cidades onde não nasce ninguém


Há pelo menos um ano, ninguém nasce mais em Martins, desde que a Coordenação de Vigilância Sanitária (COVISA) interditou a sala de parto e cirurgia, lavanderia e área de esterilização do Hospital-Maternidade Dr. Manoel Vilaça, a Apami. Desde então, as grávidas do município precisam descer a serra para "descansar" em Pau dos Ferros ou Alexandria, a 73km (1 hora) e 44km (40 minutos) de distância, respectivamente.
Foi o que aconteceu com Flaviana Fernandes, 25 anos, quando precisou fazer uma cesariana da segunda filha, Maysla Rafaela, que vai completar um mês de vida. Embora todo o pré-natal tenha sido em Martins, o parto foi realizado em Pau dos Ferros com outra equipe. Sem parentes em Pau dos Ferros, assim que Flaviana recebeu alta teve de conseguir um carro para voltar para casa, mesmo necessitando de repouso absoluto devido à intervenção cirúrgica. "Pior foi no dia que comecei a sentir dores e quando cheguei lá era alarme falso. Fiquei na rua até o final da tarde, esperando que o carro da Prefeitura fosse me buscar", reclamou.
A filha de Vandeilma Silvana, Valesca Emanoel, já está com três meses. Apesar de morar em Martins, o seu parto foi feito em Alexandria. Sua avó, Maria Vilma, disse o quanto foi doloroso para a filha viajar os mais de 40km sentindo dor. "Tivemos que trazer ela no outro dia logo. A sorte é que temos um carrinho", completou.
No outro extremo da serra, no município de Portalegre, a situação é ainda mais grave. Ninguém faz um parto por lá há pelo menos sete anos e isso tem deixado muitas mães com prejuízos e sequelas irreversíveis. Fabrícia da Silva teve Pedro Laurentino Neto há 11 meses, mas ainda não esqueceu a dureza que foi retornar de Pau dos Ferros. "É uma viagem muito longa para quem está cirurgiada; a gente sente muita dor", afirma. Sua primeira filha, Ana Alice, já está com três anos, e também não nasceu na cidade serrana.
Antônia Edjaneide lembra que Douglas, seu filho mais velho, de sete anos, ainda nasceu em Portalegre. Mas, para ter a pequena Ana Júlia, de três meses, precisou ir para Pau dos Ferros. "Toda grávida daqui tem de descer a Serra", explicou. Ela disse ainda que houve casos de mulheres que pariram no caminho e até perderam seus filhos por falta de assistência.
O problema também tem a ver com a Associação de Proteção e Assistência à Maternidade e à Infância (APAMI). A unidade possui estrutura e equipamentos novos; o que falta, segundo a administração, são recursos e profissionais.
Voltando ao outro extremo da montanha, nenhum dos pouco mais de 4.500 habitantes de Serrinha dos Pintos, a 5km de Martins, nasceu lá. Antes, os partos eram feitos na cidade vizinha. Com o problema na Maternidade Dr. Manoel Vilaça, as gestantes também precisam se dirigir a Pau dos Ferros ou Alexandria, que, por serem municípios-polos, dispõem de maior estrutura hospitalar.
O município possui uma unidade mista de saúde e se destaca em algumas ações nessa área, mas também não pode manter uma maternidade, repetindo a situação de dezenas de pequenos municípios potiguares que dependem dos hospitais regionais para garantir a natalidade de sua população.


JOSÉ DE PAIVA
Da Região Serrana
Fonte: Jornal de Fato
Via: Nossa Portalegre

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